A globalização é um fato. Há alguns anos, vivíamos em uma sociedade em que encontrar alguém que tivesse morado fora era um grande acontecimento; hoje em dia, quase todos conhecemos alguém que já teve alguma experiência no exterior. Mas nem tudo são flores quando se trata de desenvolvimento profissional internacional.
Trabalhar em outro país é uma coisa; ser bem-sucedido e bem-visto lá é outra bem diferente. Isso porque o “clique” com outra cultura vai muito além do idioma. Não é apenas falar inglês, português, alemão ou qualquer outra língua, mas conseguir se conectar com essa cultura por meio do idioma. Mesmo para um nativo existem dificuldades claras em várias situações — imagine, então, para um estrangeiro!
O peso da internacionalização no nosso dia a dia nos faz refletir sobre para onde caminham os estudos de formação profissional. As universidades não ensinam como negociar com cada cultura; isso se aprende com vivência, e os recursos linguísticos exercem um papel de contrapeso importante.
No meu caso, por exemplo, sendo brasileira, foi bem difícil criar conexão com a cultura colombiana, porque certos aspectos linguísticos típicos do Brasil não caem muito bem na Colômbia.
Um dos meus grandes desafios foi a tradução literal. Em português, para garantir que a mensagem foi entendida, costumamos dizer algo como:
– Eu acho que a gente poderia fazer isso assim, entendeu?
– É verdade…
Com a minha tradução simultânea, eu dizia:
– Então acho que a gente poderia fazer isso assim, entendeu?
E quando eu esperava uma resposta compreensiva da outra pessoa, recebia uma cara de ofensa que me deixava pensando se, por acaso, eu tinha usado alguma palavra errada — como quando eu dizia que precisava “desembarassar” o cabelo…
Só depois de quase dois anos criando inimizades em Bogotá sem perceber, descobri que o “entendeu?” brasileiro era ofensivo para os colombianos, porque passava a impressão de que a outra pessoa era “lenta” para entender. (Se algum de vocês, meus interlocutores, estiver lendo isso, por favor, me perdoe!)
O que quero dizer é que falar um idioma é um passo importante, mas entender os detalhes e sutilezas que ele carrega em cada cultura tem um peso enorme na nossa “folha de vida” social — e talvez ainda não tenhamos plena consciência disso.
A globalização é um fato, mas os seres globais ainda não se reconhecem como tais.
Isso também faz parte de um idioma, entenderam?